I
Domingo de manhã levo Trovão, meu cão Shih-tzu, para o parque público de cachorros da minha cidade.
Ao lado do parque tem um campo de futebol, a famosa várzea. O rachão rolando e, entre todo tipo de xingamento, de repente começa uma briga generalizada. Mas não se assuste, pois como num espetáculo de teatro ninguém ali se machuca de verdade.
Pergunto para o vigia do parque dos cachorros:
-É sempre assim?
Com ênfase ele responde: – Todo final de semana!
E complementa:– Antes do jogo eles dão as mãos, fazem um círculo e rezam juntos, mas quando o jogo começa sempre acaba nisso aí.
Epifania: Todo absurdo faz sentido no país do futebol.
II
19 de março de 2016 foi uma bela tarde de sábado em São José dos Campos, SP. Tempo limpo e céu azul. E em meio à cidade de concreto existe um oásis verde.
Esse oásis é o bairro Jardim Apolo, uma área pública e bem arborizada. Até alguns anos atrás o bairro era todo aberto, mas devido a uma recente lei municipal todas as suas entradas foram lacradas com grades, câmaras de vigilância e guaritas. As pessoas de fora podem passar por ali, desde que previamente se identifiquem com a segurança privada da área pública. E eu, decidido a aproveitar um pouco de sol ali, paro o carro em frente a uma das entradas.

O segurança abre a janela da guarita e pergunta:
– Vai aonde?
– Vou na área verde.
-NOME! – perguntou num tom de voz desnecessário.
Eu digo meu nome.
– RG! – outro berro.
Respondo com o mais absoluto desgosto, não apenas com o vigia, mas sim com o universo que permite que tanta coisa errada aconteça nesse planeta. Sem falar mais nada, ele abre o portão e eu entro.
Eu sento em uma cadeira, fecho os olhos enquanto tomo banho de sol:
Fico ali alguns minutos em silêncio quando começa a passar na minha frente, indo e voltando, um segurança-motoqueiro do bairro público-privado. Fecho os olhos e tento abstrair, mas então ele me aborda:
– Qual é seu nome mesmo?
– Juliano.
– Ah ok- ele diz isso e vai embora.
Fecho os olhos novamente e fico mais alguns minutos em silêncio. Daqui a pouco chega outro vigia, dessa vez de bicicleta.
– O seu carro é verde?
-Azul – falo sem paciência.
– Ah! É que o segurança da rua disse que você entrou, estacionou e não entrou em casa alguma.
– Não me encha o saco – não, eu não disse isso. Eu sou contra grosserias e só pensei nisso porque minha paciência já tinha acabado.
– É, eu falei que viria na área verde…
Ele vai embora e eu tento fechar os olhos e aproveitar o sol, mas não consigo. Aquilo tudo me cansou. Eu levanto e vou embora; naquele sábado eles que venceram.
Fica a pergunta: uma lei municipal que autorizou o fechamento de uma área pública e com isso multiplicou o milionário valor das residências, sem nenhum tipo de ônus ou contraprestação para a sociedade, é uma lei justa? Será que se houvesse consulta direta para toda a população da cidade (700 mil pessoas), tal lei seria aprovada?
Pois se o que vale para alguns, deveria valer para todos, então que permita-se que todos os bairros se fechem, embora o efeito colateral disso seria inviabilizar o direito de ir e vir das pessoas…
O que é prejuízo para muitos é lucro para alguns poucos. Compreendendo isso, compreende-se o Brasil. Não se trata apenas de condomínios ou grandes. É algo além, é o interesse público sendo gradativamente tomado pelo privado, o dinheiro e poder subjugando a política, meio ambiente e o bem estar social. E assim, entre prejuízos coletivos e lucros privados, o Brasil vai se segregando e se enche de ódio. É o choque entre classes, o vermelho contra azul, o branco contra o preto, a casa grande contra a senzala, o mal contra o bem.
Mas a verdade é que sobre teses e antíteses, eu não faço aqui juízo de valor. Somente a síntese: tantas grades demonstram claramente o fato que vivemos como animais em nossas cidades. Nessa bela tarde de sol eu compreendo o que todos aquelas caras raivosas, sejam à direita ou esquerda, sentem quando protestam: eita mundo cão!
(Publicado originalmente em 2016)
Nota: o portão caído na primeira foto foi derrubado por um motorista revoltado com fatos decorrentes do fechamento do bairro. Esse é o tipo de “socialização” que a política brasileira promove com todo tipo de leis injustas.

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