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Parte 1 – Não precisamos trocar os personagens, é preciso mudar o roteiro

Os políticos são a mentira, legitimada pela vontade do povo – José Saramago

No espetáculo político existem mocinhos, bandidos e os coadjuvantes. Como em uma trama bem feita, aqui não dá para distinguir claramente quem é quem; na política a percepção de herói e vilão às vezes até troca de lado. Duvida?

– Lula? – percepção popular sobre ele: amor e ódio.

– FHC? – idem.

– O prefeito da sua cidade ou governador do Estado? Getúlio? – E por aí vai…

Desde a polarização Dilma vs. Aécio em 2014, o país está dividido. Quem ainda acredita nos personagens se ofende e até se agride nas rua. Selvageria.

Mas entre amor e ódio, há também uma grande parcela (maioria?) do povo que vê os representantes com certa indiferença, descrença talvez. Não se trata de má vontade com políticos, apenas não depositam a esperança em poucos sendo responsáveis pelo progresso de muitos.

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Para essas pessoas, embora o papel dos políticos seja expressivo, eles são só personagens nesse roteiro. Mas qual é esse roteiro?

É o roteiro político. Esse roteiro é real e está acontecendo agora. No mundo, no Brasil, na sua cidade e vai ainda além. Ele começa em você. É de você, eu e nós, que deve vir a verdadeira por mudança.

Não podemos mudar o mundo inteiro, mas podemos mudar nós mesmos. Somos parte desse inteiro: Dilma, FHC, PT, PSDB, e todos os outros são apenas um lado mais remoto da mesma política que é feita a partir da sua cidade, seu bairro, sua casa e finalmente você. Sendo assim, impunidade, corrupção e ineficiência política são resultados de um contínuo caminhar histórico-cultural que não surgiu com esse ou aquele partido ou político específico.

Para mudarmos essa realidade é necessário refletirmos sobre questões mais profundas do que propagandas políticas feitas com a superficialidade de campanhas publicitárias. Problemas reais necessitam de soluções mais profundas do que jingles e slogans de campanhas e partidos políticos.

Qual cidade brasileira foi bem urbanizada? Com um plano de urbanização que ponderasse, em conjunto, fatores como ocupação do espaço urbano, mobilidade urbana, saneamento básico, meio ambiente e segurança?

P.Ex: No município mais rico do país, São Paulo, cortando a cidade há dois grandes rios – Pinheiros e Tietê – mortos e transformados em esgoto. Esse é o custo de atravessarem a selva do homem brasileiro. Além disso, como é a especulação imobiliária, ao invés do planejamento, quem dita a ocupação urbana e há incapacidade total de gestão de transporte público, é normal para um paulistano todos os dias gastar horas preso em congestionamentos. Desperdício de recursos e força produtiva, enquanto milhões de pessoas ficam presas no trânsito.

É claro que não se trata apenas do trânsito ou esgoto, o problema é algo muito maior. É a completa incapacidade de planejamento coletivo. O que acontece no município de São Paulo é o que acontece, em menor escala, em qualquer outra cidade do Brasil. E se as pessoas não conseguem sequer organizar o convívio nas cidades (o menor dos entes federativos), é óbvio que não terão sucesso ao organizarem politicamente os entes maiores (Estados, DF e União). Ou seja, o esgoto jogado no rio de sua cidade é fruto do mesmo esgoto político que é despejado em Brasília.

Poderíamos ir além: o Brasil é rico em minérios, recursos naturais, água, florestas, entretanto somos socialmente pobres. Será que faltam prédios e carros de luxo para as pessoas? Ou o que falta é um mínimo de noção de organização coletiva?

A má gestão dos bens públicos, corrupção e incapacidade de planejamento são problemas que existem independente de partidos ou até mesmo ideologias. Todos nós, com consciência de voto, conhecemos a árdua tarefa de escolher o político “menos pior”. Historicamente a coisa é tão feia que até um macaco de zoológico, o Tião, já foi eleito no passado. Décadas se passaram e agora o eleito é Eduardo Cunha e seus asseclas, animais mais perigosos e selvagens.

Essa é a breve síntese do Brasil: Cunha, Macaco Tião, inocentes e culpados, representantes e representados, são resultado de um só processo histórico. Se há problemas, não se trata de alguns culpados, mas sim de uma culpa que é responsabilidade de todos. É nesse aspecto que o problema não são os personagens, mas sim o próprio roteiro.

Não há motivos para se alongar na descrição da falência política atual. A democracia representativa faliu, é como um cadáver que insiste em andar. Criticá-la é quase uma redundância. Precisamos mudar, combater não só os sintomas, mas sim a própria doença.

Mas se consenso quanto a podridão política, também há cisão de entendimento quanto ao modo de transformação.

Reforma política sim, mas como exatamente?

Se for esperar que ela seja feita por meio de lei, é bom salientar que: 1) falta interesse aos políticos eleitos para mudarem uma estrutura que lhes dá tanto poder; 2) A atividade legislativa representativa, além de corrupta, é ineficiente. Ainda hoje, quase 30 anos depois, mais de 100 dispositivos previstos na Constituição Federal de 1988 (link) ainda esperam por regulamentação infraconstitucional.

Ou seja, se o Legislativo não tem capacidade sequer de cumprir seu dever, é inviável esperar que vá mais além. É como esperar a galinha se matar para se servir de canja.

Então é necessária outra alternativa, que não passasse pelas mãos deles. E qual seria?

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