Dizem que todo povo tem os governantes que merece. Mesmo assim, é muito frustrante ser brasileiro. Nós não merecíamos essa política, embora a criamos e sustentamos.
O cenário político brasileiro do pós 2014 é de falência institucional. A eleição de 2018 conseguiu ser pior que 2014. Todo lamaçal político submergiu de uma vez. Congresso Nacional. STF. Presidente da República flagrado negociando propina e permanecendo no cargo. PMDB, PT e PSDB. Concorrentes ou comparsas? As mesmas práticas espúrias. Afinal, o vice de Dilma era quem? E quem se alinhou com o vice petista no “novo” governo?
O problema é o sistema: se um único político ou partido se corrompe, há algo errado com ele. Mas se TODOS os partidos se corrompem, há algo de errado com o sistema.
Era questão de tempo. Um organismo desequilibrado favorece o surgimento de vírus e parasitas. Era questão de tempo para que o oportunismo político aproveitasse o ódio ao establishment. Foi assim com Trump nos EUA e com Bolsonaro no Brasil. Com uma diferença: Bolsonaro é uma cópia tosca daquilo que já era tosco. Ele sequer sabe debater. Suas posições sobre política são limitadas a verborragia e frases de efeito.
“Sou a favor da tortura”, “O erro da ditadura foi ter torturado e não matado”, “Eu falei que não ia estuprar você porque você não merece”
Essas são frases que cairiam mal em conversa de bêbado em boteco, mas quando ditas pelo provável presidente da república são prova inquestionável que a sociedade brasileira está profundamente doente. Não, esse não é um texto de apoio ao outro adversário. Aliás, jogar a discussão em uma dicotomia maniqueísta é a melhor forma de sufocar o debate e abafar questionamentos legítimos. Foi assim que a sociedade mergulhou numa histeria coletiva. Coxinhas, Petralhas e Bolsonetes: quem xinga mais vence?
Veja os comentários nas matérias do G1 da Globo. Veja o imenso esgoto que transborda do Whatsapp e Facebook. Veja os vídeos no Youtube com títulos feitos para chamar atenção (clickbait) e satisfazer o tédio de gente espumando de ódio. Fulano destrói Siclano. Esquerdista humilha sei lá quem. Direitista acaba com esquerdopata. Todos a procura da perfeita lacração.
Ali só tem extremos. O que é sensato não ganha likes. Se você concorda, é sábio. Caso contrário é um completo imbecil. E assim, com muitos gritos, mas pouco dialogo, criamos um enorme hospício chamado Brasil.
Esquerda e Direita, uma dicotomia vazia, burra, sem sentido, originada de uma classificação do final século XVIII, mas que por aqui, no hospício, parece fazer todo o sentido. De um lado uma esquerda ou direita com todos os méritos. Do outro, o oposto com todos os deméritos. Tem como dialogar com isso?
E o oportunismo/fisiologismo político sabe bem aproveitar as ondas de insatisfação do povão. Vide o marqueteiro João Dória. Quando quis ser prefeito, ele jurava que não era político, mas sim “gestor público”. Em 2018, candidato a governador, em maio ele disse “Mesmo que o tenhamos um desastre com Bolsonaro, o Brasil sobreviverá”. 5 meses depois, ele surfa na onda Bolsonarista, com o patético slogan de campanha “Bolsodória”.
Mais uma vez o povo acredita em salvadores da pátria. A verdade é que 28 anos depois nós elegeremos um novo Collor. Espremidos entre a escolha do ruim ou o péssimo, o povo dá de ombros, afinal “a culpa não é minha, eu votei no Aécio “.

Viveremos para contar aos netos daquela vez que o povo elegeu um presidente que sequer sabia conversar. Apenas ofendia e xingava. Contudo, tudo que é sólido se desmancha no ar. Sobreviveremos para ver isso tudo passar, inclusive o ódio que sentimos por nós mesmos. Se violência solucionasse a violência, o Brasil seria a Noruega há séculos. O problema é muito mais profundo que solução fáceis, simplificações estúpidas e “lacração” em redes sociais.
Infelizmente, cá estamos. Ladeira abaixo. Coxinhas, petralhas, bolsonetes e, como eu, os descrentes. NÃO PRECISAMOS TROCAR OS PERSONAGENS, É PRECISO MUDAR O ROTEIRO.

(fonte da imagem: facebook.com/objetosinanimadoscartoon)

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