PCC é pirâmide financeira, diz delegado da PF
O delegado da Polícia Federal Martin Bottaro Purper disse que o PCC funciona como pirâmide financeira, pois os líderes da cúpula da facção enriquecem às custas das contribuições pagas por membros do baixo escalão. Cobra-se mensalidade dos membros e por um complexo sistema de operações bancárias, o dinheiro tende a ir majoritariamente aos líderes no topo. Da mesma forma que um Herbalife ou telex free.
País do futebol, início. Na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, ou, para os íntimos, presídio Piranhão, o time de futebol Comando Capital era composto por 8 presos da capital, nome depois adotado na criação da facção PCC, em 1993.
No início da facção, o time de presidiários dizia que ela havia sido criada para “combater a opressão dentro do sistema prisional paulista” e também vingar os mortos do massacre do Carandiru no ano anterior. Como decorrência da barbárie prisional brasileira, o PCC surge como forma de preencher a lacuna do Estado, oferecendo segurança e uma ordem que surge em meio ao caos que imperava.
A simbiose entre PCC e governo paulista
Dráuzio Varella, médico que atendia no Carandiru e testemunhou o nascimento da facção, disse que em entrevista à VEJA, que o PCC ajudou a reduzir a violência dentro e fora dos presídios:
“Você tinha naquela época várias facções, mas nenhuma que dominasse. Havia muita brutalidade entre os presos. No Carandiru era esfaqueamento, ataque com água fervente, uma barbárie que não era diária, mas que emergia com bastante frequência. Agora, a barbárie acabou”
Fora dos presídios, segundo ele, a diminuição da violência pode ser comprovada pela queda no número de homicídios no Estado de São Paulo. “Quem consegue conter isso é o crime organizado, porque ele proíbe que saiam matando. Você não pode matar ninguém no seu bairro sem autorização, ou você morre. Não pode matar a sua mulher se descobre uma traição.”.
O entendimento de Dráuzio Varela é similar ao da tese do pesquisador Graham Willis, Professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra):
“O sistema de segurança pública nunca estabeleceu por que houve essa queda de homicídios nos últimos 15 anos. E nunca transmitiu uma história crível. Falam em políticas públicas, policiamento de hotspots(áreas críticas), mas isso não dá para explicar”, diz. “A queda de 73% nos homicídios no Estado desde 2001, marco inicial da atual série histórica, é muito brusca para ser explicada por fatores de longo prazo como avanços socioeconômicos e mudanças na polícia “.
Conforme o pesquisador, isso fica claro quando se constata que, antes da redução, os homicídios se concentravam de forma desproporcional em bairros da periferia da capital paulista: Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, Brasilândia. A pacificação nesses locais – com quedas de quase 80% – coincide com o momento, a partir de 2003, em que a estrutura do PCC se ramifica e chega ao cotidiano dessas regiões. “A queda foi tão rápida que não indica um fator socioeconômico ou de policiamento, que seria algo de longo prazo. Deu-se em vários espaços da cidade mais ou menos na mesma época. E não há dados sobre políticas públicas específicas nesses locais para explicar essas tendências”, diz ele.
Ou seja, nas infinitas periferias de SP já não se mata ninguém sem prévio julgamento e anuência da facção. A barbárie que antes imperava, em que cada “quebrada” tinha seu imperador Nero-marginal, foi domesticada pelo medo de um inimigo poderoso demais para ser enfrentado por qualquer bandido sozinho. PCC não é pessoa física, é instituição do Estado paralelo que surge como consequência do Estado não operante.
Simbiose é relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes.
Geraldo Alckmin, como bom oportunista, logo tratou de faturar em cima da redução das mortes violentas em SP: “Isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação. Policiais morreram, perderam suas vidas, heróis anônimos, para que São Paulo pudesse conseguir essa conquista”, disse ele em 2015 ao comentar em anúncio oficial que as taxas de homicídios dolosos ficaram em 8,73 por 100 mil habitantes – abaixo de 10 por 100 mil pela primeira vez desde 2001.
Lembrando que não há fatores socioeconômicos ou investimentos públicos que dão amparo a tal afirmação, apenas a bravata do então governador querendo ganhar capital político em cima de policiais mortos em serviço.
O sucesso do PCC é o nosso fracasso como sociedade. Atualmente espalhado por todo o Brasil e atuante até em países vizinhos, o sucesso e expansão do PCC deveria servir para o estudo de como nós, sociedade, somos fracassados. Estado omisso e fraco significa Estado paralelo forte e presente. Vide as milícias e narcotráfico no Rio.
Por que na Holanda e Califórnia tem amplo comércio de drogas, mas ninguém de fuzil? Por que isso só acontece aqui?
Debateríamos melhor sobre a violência nos presídios e ruas se o diálogo não fosse limitado a simplificações via chavões genéricos como “bandido bom é bandido morto”, “ta com pena leva para casa”, “direitos humanos para humanos direitos”, entre outras. Vide o discurso do atual Presidente da República. Esse com íntima ligação com milicianos.
As pirâmides de Ponzi
Pirâmide de Ponzi é caracterizada pelo fato de ser insustentável sua existência sem a adesão continua de novos integrantes na base. P.ex. a Telexfree faliu quando a justiça determinou a proibição o ingresso de novos membros. As vendas dos tais “voips” não deram um centavo.
Do valor da mensalidade do PCC, uma pequena quantia retorna em benefícios aos filiados, como espécie de seguridade social e taxa de segurança. A maior parte do dinheiro vai para a cúpula milionária da facção, que vive vida de luxo em condomínios de luxo com carros blindados. Contudo, para cada José tem mil Zés. Para um grande chefe milionários, existe uma infinidade de bandidos miseráveis. De crime em crime para sobreviver. E só. Miséria material e espiritual.
E o Estado?
O dinheiro dos impostos serve aos privilegiados no topo. Deputados e senadores. Desembargadores ganhando auxilio-moradia. Empresários do capitalismo de compadrio (metacapitalismo). Vide o diretor da FIESP Laodse de Abreu Duarte e sua dívida com o fisco de R$ 6,9 bilhões. Some-se isso a dívida de seus irmãos, Luiz Lian e Luce Cleo, com dívidas superiores a R$ 6,6 bilhões.
Essa é a FIESP que adora falar pagar o pato e em excessos de privilégios, quando se refere aos direitos trabalhistas. Vide também Eike batista, os irmãos Batista da JBS-Friboi, ou a história da Rede Globo.
Não se trata de Estado ruim, mercado bom. Trata-se de agente públicos e privados em conluio agindo para tirar proveito de dinheiro público. Essa é a história do Brasil, desde sua fundação. O público sempre esteve abaixo do interesse privado.
Tanto é que isso ocorre em qualquer cidade. Segundo algum dos delatores da Lava Jato, sem propina não se troca um paralelipípedo no Brasil. O Estado, nesses moldes, é pirâmide financeira. O topo parasitário precisa de dinheiro entrando constantemente na base pra sustentar seus lucros e privilégios. Assim como o PCC e Telexfree, no governo o grosso do dinheiro dos tributos vai para poucos que ganham muito com o esquema.
O Estado é ruim para muitos, mas é bom para poucos. Tributação altíssima para sustentar benefícios e vantagens imorais. Para a massa restam os hospitais sucateados, descaso ambiental, violência e ensino público que é sabotagem institucional. Brasil: serviços públicos e infraestrutura padrão Serra Leoa com tributação escandinava.
E para mudar?
Nem se quisessem, presidentes e governadores poderiam mudar esse paradigma. O sistema vigente é maior do que eles. A mudança tem de vir de nós. Esperar mudança vinda pelas mãos dos outros é a fórmula certa para frustração.
Assim como o PCC se espalha pelos municípios, as organizações criminosas chamadas partidos políticos se espalham no Brasil. O know-how criminoso de superfaturamento, aparelhamento público e lavagem de dinheiro se espalha por todos municípios. Não se coloca um paralelepípedo sem propina neste país.
O ponto é que a representação política é falsa. Vereador, deputados, senadores. Via de regra eles não nos representam. Especialmente quando o orçamento público envolve bastante dinheiro. Logo, fazem vista grossa aos desvios de prefeitos, governadores e presidentes, se para eles isso for vantajoso. Não é a toa que, de norte a sul, as cidades brasileiras são feias, perigosas e mal planejadas. Princípio da simetria entre entes federativos.
Democracia digital é intervenção cirúrgica. Remédio preciso, age no centro do problema: democracia representativa não é democracia, pois a partir do momento em que delegamos poder ao “representante”, nós e eles não somos mais dois iguais. À esquerda e direita, não se engane com os discursos teatrais dos políticos profissionais: somos nós contra eles.

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