Nunca antes tivemos tanto acesso à informação e nunca antes estivemos tão perdidos e ignorantes. Paradoxo da Era da informação.
Perguntado sobre um assessor do governo que receberia dinheiro indevido, Jair Bolsonaro xinga é a mãe do repórter. O presidente dito cristão-conservador posta no Twitter vídeo de golden shower e masturbação anal, feita em algum canto obscuro do Carnaval. Debater isso é prioridade para o Presidente da República de um país com 200 milhões de habitantes?
Salientado isso, pondere: de que maneira saber a última baixaria/ barbaridade proferida pelo presidente, governador, prefeito, Datena, Ratinho ou qualquer outro agrega algo?
Estamos na Era com maior acesso e trocas de informação da história da humanidade. Contudo, a impressão que fica é que nunca estivemos tão perdidos. Fake news, pós verdade e manipulação grosseira das massas nas redes sociais. São problemas do séculos XXI.
Como um reality show, o tio e tia do Whatsapp agora passam o dia inteiro lendo sobre política (além de compartilharem vídeos e piadas toscas), mas lendo exatamente o quê?
Trata-se de leituras profundas que façam refletir, ou mensagens curtas, intencionalmente escrita de modo tosco com intuito de criar pânico e medo? O cara na rua vocifera que é tudo culpa de uma esquerda ou direita canalha, mas sequer sabe quais são os três poderes. Fala sobre como o comunismo ou capitalismo são demoníacos, mas não sabe conceituá-los sem apelar aos chavões toscos de Internet. Estamos nos tempos da lacração, a briga vale mais que o diálogo.
Efeito Dunning-Kruger, quanto menos uma pessoa sabe sobre algo, mais o conhecimento do pouco parece ser muito a ela: o efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem-preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros.[1]
Todos conhecemos um parente e/ou amigo que sequer ouve os outros naquilo que discorda. Classifica como ninguém, como num jogo de futebol, comunistas e direitistas. Vermelho pra um lado, azul pro outro. Um mundo monocromático em que há somente preto e branco. Enfim, um orador de youtube, professor de whatsapp e jornalista de twitter.
Geralmente, o raso é sua zona de conforto. No celular passa o dia inteiro se especializando. Textos de até 256 caracteres e vídeos editados para manipulação são seu campo de pesquisa. E chavões e mais chavões teatralmente buscam a lacração. Raso no conhecimento, mas profundo na convicção. É convicto que sabe muito, por isso ignora o que vai além de suas certezas. Quem já tentou debater com uma figura dessas sabe bem…

A questão é que agora, com acesso ilimitado a informação, temos de nos orientar sobre o que e como se informar, sob risco de cair no oceano de desinformação. O problema não é saber a última notícia. O problema é passar o dia inteiro vendo últimas notícias, sem saber exatamente o por que elas acontecem.
As discussões e campanhas políticas são feitas de modo artificialmente superficial. É um sistema moldado para que andemos em círculos, debatendo aspectos superficiais dos problemas sociais, econômicos e políticos, enquanto o que deveria ser relevante passa despercebido na gritaria. Lembrando que a eleição de 2018 sequer houvr debates entre candidatos.
É claro que a falta de Educação tem papel essencial nisso. Como disse o educador Darcy Ribeiro: a crise na educação não é crise, é um projeto. Agora, em meio ao caos, percebe-se claramente a necessidade de manter o rebanho desinformado: fica mais fácil de controlar as massas.
Contudo, essa indução à ignorância (vide um sistema de ensino que foca em formar operários, mas não cidadãos) funciona até certo ponto. Cabe a nós lutarmos por nossa emancipação. Experimente alternar Twitter (que tem muita coisa interessante) com leitura de livros e artigos profundos. Vá além de textos com 256 caracteres. Ideias mais profundas do que que correntes toscas do ZAP ZAP. E diálogos muito além das tosqueiras faladas por bêbados em churrascos.
Basicamente é escolher entre adiquirir e transformar o conhecimento, ao invés de por ele ser manipulado.

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