Collor, o presidente do saco roxo. Luladrão cachaceiro nove dedos. Dilma vagabunda Rousseff. Bolsonaro genocida fascista.
Esse são algumas das coisas ditas sobre presidentes no Brasil. Fato notório, no campo político a misogenia e grosseria inerentes ao selvagem brasileiro se manifestam com força.
É importante frisar: xingar juiz de futebol no Brasil é a MESMA coisa que xingar Presidente da república. Só muda o tipo campo, de futebol para política.
Xingar um presidente é tão (in)útil quanto o juiz que marca pênalti. Há uma carta branca, aos torcedores e eleitores, de poder xingar sem limites e caso exagerem, foi licença poética.
Interessante notar que xingar juiz é aspecto fundamental para o fascínio pelo futebol no Brasil. Ali nos gramados é o único lugar onde isso pode ser feito sem maiores consequências. É o lugar onde o preto, pobre e favelado pode xingar uma autoridade sem ser preso ou sumariamente executado. Assim, por um momento mágico, aquele torcedor não é mais aquele jovem oprimido pela miséria desde que nasceu. Não, no estádio ele transcende isso. Ali ele faz parte de uma imensa familia/time, e se a autoridade errar será cobrada: juiz filho da puta, eles gritam! Justiça finalmente foi feita, futebol paixão nacional.
Devaneios à parte, nós eleitores somos como esses torcedores. Entendemos que formamos “um time”, partidário ou ideológico. Rojões quando o próximo presidente for eleito. Bandeiras, hinos e brigas. Essa é a nossa organização social. Tosca, proporcional ao brasileiro padrão (cultura forjada por séculos de desigualdade social e baixo padrão educacional).
Desse modo, enquanto somos roubados por privatarias, mensalões e milicias, nos resta xingar o Presidente. O grande bode expiatório de tudo. E isso serve de quê? O que muda? Alguém se acha mais sábio porque faz algo desse nível:

olha eu aqui, macho demais.
Essa mulher da foto é mãe e avó. E esse infeliz tem mãe. Talvez irmãs, quiçá filhas. Misogeno, ali ele não ataca Dilma, mas a figura da mulher. Repudiar essa barbárie não é ser petista, mas minimamente civilizado.
Um povo frustado e com ódio, fica exposto. Não à toa, elegemos Bolsonaro. Um homem pra endireitar a corrupção no Brasil que tem inegável vínculo com o crime organizado carioca. Uma piada miliciana. O que ocorre é que pessoas com medo ou ódio tem discernimento reduzido. Menos racional, mais reativas. Se tornam perigosas. A estratégia do presidente Jair é bem clara, manter tensão constante. Logo, o que discutimos não são alternativas a esse sistema político podre, mas a última polêmica da classe política. Somos conduzidos, ao invés de conduzir.
Por trás das falácias inúteis desse espetáculo, fazer polêmicas constantes ajuda a sequestrar a pauta política. O algoritimo das redes sociais não distingue bom de ruim, apenas quer saber do polêmico que traga muitos pageviews. Cada visita é uma propaganda exibida e dinheiro recebido por Google, Facebook, Instagram, etc…
A estratégia do seu Jair funciona muito bem. 35 anos de política, ex esposa, três filhos e ele próprio, todos milionários. Se elegeram e enriqueceram na política. Ético? Não. Sagaz? Muito!
Por funcionar tão bem, logo, o político vive da polêmica, se destaca e ganha votos. Falem mal, mas falem de mim. No conceito de rede social, xingá-lo apenas ajuda a ficar nos trending topics, os assuntos populares do momento.
Reclamar não é uma estratégia. É necessário lidarmos com o mundo como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse – Jeff Bezos
A questão é: até quando faremos política com as vísceras ao invés do cérebro. Ao invés de emoção, razão. Racionalidade é o que nos distingue de animais.
O ponto relevante é que xingar não adianta. E o que adianta?
Adianta enxergar uma estrutura política falida. Brasília, capital do Brasil, é a instucionalização da vergonha. Não é só o presidente. É o mecanismo inteiro.
Por que partidos políticos operam de maneira similar a organização criminosas?
Tire a ideologia, análise a estrutura. Se um político é ladrão, a culpa é dele. Porém, se a esmagadora maioria são corruptos, a culpa é do sistema que permite que assim o seja.
É isso que tem de mudar. Dizem que Brasil e EUA são democráticos, mas votar não significa nada se o interesse do povo não for representado depois da eleição. Temos apenas um simulacro de democracia. Votamos e ganhamos o direito de sermos enganados/roubados.
Alguém acredita que o Congresso briga por você? É óbvio que não! Não por acaso somente 6% das pessoas declaram confiar na classe política nesse país. Somos uma nação que deu errado, logo precisamos mudar o rumo.
Xingar seu político de estimação só serve pra fortalecê-lo. Bolsonaro, o mais xingando ultimamente, tem agora chances reais de ser reeleito. Você quer mudar algo? Não perca tempo com algoritimo de Twitter e similares. Saber a última polêmica do dia não serve pra nada. Semana que vem surgirá uma nova e a de agora se tornará irrelevante. É como um reality show, um imenso circo.
A lição é: não se revolte apenas com os palhaços se apresentando, mas com a estrutura do circo.
É legitimo as pessoas terem repulsa ao sistema podre, e para mudar Democracia Digital é o caminho, sem dúvidas. Contudo, xingar é desperdício de saúde e energia.

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