Em que ponto um cristão vota em alguém que é a favor da tortura? Da pena de morte irrestrita?
Alguém que normaliza vingança e opressão num muito pior nível do que a ofensa é alguém que está mais próximo dos carrascos do que de Cristo.
Evangélicos, católicos, e toda espécie de cristãos tem de entender que um Deus perfeito jamais deve se misturar com a coisa mais imunda que uma sociedade desequilibrada como a nossa produz, a política. Jesus não foi cabo eleitoral e se Bíblia é sagrada ela não deveria servir de santinho para oportunistas. A separação entre religião e política, o Estado laico, não é intolerância religiosa, mas sim liberdade política. Não é fruto de esquerdismo, comunismo ou bicho-papão, mas sim de milênios de experiência que mostram que política e religião é mistura perigosa. Hittler e outros sanguinários ditadores se diziam abençoados por Deus. Enquanto a massa religiosa não compreender isso, continuará elegendo “cristãos” como o presidiário pastor Everaldo e a homicida Flordelis…
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. É o lema Jair, o miliciano. Bolsonaro é desprezível e seu governo falhou em todos os aspectos: sociais, educacionais, econômico e ambiental. Porém, a pior falha é civilizatória. É um andar para trás em um país que têm quase 3/4 de sua história feita com humanos sendo tomados por propriedade. Escravidão é considerar outro humano propriedade equivalente a um animal. De alguma forma, esse passado é perpetuado em nossa cultura. Quantos pretos pobres a polícia matou hoje no Brasil?
Um povo que desconhece seu passado está condenado a repetir os mesmos erros. Japão tem museu da bomba nuclear. Alemanha do hocausto. Porém no Brasil não há museu da escravidão. Se houvesse, talvez seria conhecimento notório que o primeiro batalhão de polícia militar no Brasil surgiu pelas mãos da monarquia – que estava preocupada com a estabilidade social quando a libertação dos escravos se tornava próxima e inevitável. A polícia no Brasil surgiu para proteger patrimônio e reprimir pobre. Seu emblema tem a Coroa, armas e as culturas agrícolas escravocratas do café e cana. Sem lugar para preto pobre, até hoje.

Eleger Bolsonaro, que fez stand-up comedy sobre quilombolas pesando 5 arrobas, é a resposta cômoda de uma sociedade acostumada a achar álibis para seus problemas: a culpa é dos outros e brutalidade é solução sempre. Porém, a pregação só fica no teatro eleitoral. Bolsonaro só grita bandido bom é bandido morto porque sabe que polícia no Brasil não extermina bandidos, desde que sejam ricos e de preferência de olhos azuis. Pra esse tipo de bandido, como o seu filho Flávio Bolsonaro, a polícia e a lei são amigas.
Pra quem protestava por vinte centavos, hoje estamos muito calados. Não é por acaso andamos em círculos, tropeçando nas mesmas pedras pelo caminho. Presos em um buraco que não sabemos sair.
Não é PT e antipetê que assustam. Nem mesmo Bolsonaro. Não é direita e esquerda. O que assusta é o que está no centro de tudo isso: é o povo, pois políticos são apenas o reflexo.
Políticos são os sintomas, mas não propriamente a doença. Se não quisermos mais continuarmos no tratamento paliativo, ao invés de trocar os políticos, devemos mudar o organismo em que eles estão. O modelo de democracia representativa faliu, tornou-se obsoleto em um mundo digital. Esse é o problema, pois com um congresso nacional como atualmente o nosso, qualquer presidente continuará sendo chefe de quadrilha.

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