Aspecto tribal: gravado na mente durante o decorrer de milênios em selvas e savanas, um lado instintivo do homem está sendo sufocado no engravatado homem moderno.
A prisão moderna não tem grades. É construída com rotinas de trabalhos exaustivos, corrida perpétua por dinheiro (a corridas de ratos), crises cíclicas político-econômicas e, para compensar tanta pressão, prazeres ilimitados que se assemelham a autosabotagem. Não à toa somos tão propensos ao vício e compulsão. Tédio, drogas, sedentarismo, TV, celular, masturbação, pedofilia, comida, entre infinitos outros. Para uma mente doente tudo é passível de compulsão. Pode ser um adulto fantasiando sexualmente crianças de cinco anos. Pode ser um obeso se alimentando até a morte, praticando um suicídio lento e silencioso. Japoneses cortam a barriga no harakiri, ocidentais comem até explodir.

É óbvio que os seres humanos não são todos pedófilos-drogados numa corrida de ratos. Trata-se de uma generalização, um esteriótipo, um arquétipo. O que importa ressaltar é que a figuração simboliza. Trabalhador que não vê a hora da semana acabar. Sexta feira é dia de “tomar breja e encher a lata”. Você é, já foi, ou conviveu com o tipo. Não se trata de juízo de valor. Aqui, escreve-se sobre política, logo vai-se além de julgamento moral de indivíduo. O foco é outro. É buscar resposta para por que o sistema cria isso em massa? Por que as prisões são fábricas de psicopatas? Por que depressão é a doença moderna? E por que o grito do Viking tanto reverbera?
Nos EUA, pelo menos 81,2 mil pessoas morreram por overdose entre junho de 2019 e maio de 2020. Para se ter uma ideia da grandeza disso, no Brasil são registrados por ano uma média de 60 mil homicídios. Num país “rico e livre” (conforme a propaganda) mais pessoas morrem por compulsão em drogas do que mortos por homicídios num país em guerra civil não declarada. É mais tentador ao jovem americano encontrar prazer mortal na heroína do que a encarar a jornada do homem moderno que lhe for vendida como roteiro de vida, o american dream. Débitos estudantis, achatamento dos salários e devastação ambiental. Overdoses poucas vezes são acidentais, na maioria é um suicídio desejado. Faz sentido, deve ser mais fácil do que um tiro na própria cabeça. É cômodo culpar as drogas pela epidemia. Difícil é enxergar o que gera insatisfação em massa, de modo que seja mais tentador morrer de overdose do que construir uma vida no sistema degenerado em que você precisa competir e vencer.

A publicidade gera a insatisfação. Sim. Satisfação não vende. Sua família só estará completa se passarem margarina no pão no café da manhã. Todos maquiados e sorrindo. Sutilmente, a criança é tele-doutrinada a consumir. Consumo é a chance de libertação momentânea do trabalhador. Roupas, relógios, carros e tênis de marca ajudam consumidores a afirmarem qual camada social pertecem. Ou fingem pertencer.
O homem moderno construiu para si uma prisão e agora cava a cova.
É por isso que buscamos tanto libertação. No Sul, um Messias que sequer partido e governo tem. No Norte, a versão original: Donald Trump. Os messias falharam. O desespero apertou. É mais cômodo ao reacionário dizer que a culpa é do oprimido por permitir a opressão. Porém, ao invés de culpar indivíduos, numa cavalgada quixotesca que não leva a lugar nenhum, que tal ir além de superfície da polarização e compreender o que gera insatisfação em massa?
O grito reprimido é de desespero. Vemos o mecanismo humano esmagando o homem e meio ambiente. À direita vem o negacionismo que o homem interfere no meio ambiente. À esquerda, os pretensiosos “créditos de carbono”, oportunismo financeiro disfarçado responsabilidade solidária.
Nas redes sociais os debates são sabotados por um maniqueísmo artificialmente criado para abafar o que deveria ser o debate. Sob pretexto de guerra ideológica, picaretas profissionais enriquecem destruindo reputações e criando “fake news”. Logo, ou você é capitalista ou comunista. Ou progressista ou conservador. Esquerda ou direita. Branco ou preto. Cria-se uma polarização artificial e mantém-se o debate na superfície. Geralmente os velhos caem como patos. À esquerda ou direita, tanto faz. Qualquer lixo de whatsapp e redes sociais é digno de crença absoluta e encaminhamentos infinitos. A mentira (fake news) corre mais rápido que os fatos. No mundo digital a realidade é relativa. Ela se tornou disputa de narrativas onde quem tiver mais Views e likes vence.
Não tem problema comer capim, desde que creia cegamente estar comendo caviar. Assim é o pobre endividado moderno, um tipo tão atordoado que acha que o veneno é remédio. No Brasil não se vive, sobrevive. Quem duvida basta estudar as feições aleatórias das pessoas que andam nas ruas. Esbanjam felicidade ou raiva?
Mais uma vez: o grito do viking é o desespero calado do homem moderno.

No inconsciente coletivo, o tribalismo masculino evoca figuras selvagens arquéticamente gravadas no homem moderno. Porém, a luta agora não é mais contra bisões, ursos e outras feras. Não, a luta é contra a descrença generalizada. A classe política não representa ninguém. Se a realidade agora é narrativa, a abundância do consumo em massa pode ser facilmente forjada como o único caminho aceitável.
O capitalismo tem alguns séculos de existência. É óbvio que tem de evoluir. O capitalismo (especialmente o financeiro) tem de ser calibrado para gerar bem estar em massa. Consumo tem de existir. Lucro também. Porém, são perigosos se não tiverem limites. Caso contrário, grandes corporações dominam o sistema político. Não são as pessoas, mas sim o dinheiro que é bem representando na política representativa. Um sistema que cria escassez fingindo criar abundância. Vide alto executivo da Nestlé pregando que as águas deveriam ser privatizadas, pois só assim as pessoas lhe dariam valor. Produtos descartáveis feitos por trabalhadores igualmente descartáveis. No topo, empresários e países endividados, sempre arrolando dívidas rumo à expansão. Uma máquina de construir indivíduos ricos, mas coletivamente constrói miséria. Com o dinheiro da invasão ao Iraque era possível pagar estudo universitário gratuito para todos os norte americanos por ao menos vinte anos. O que seria mais “patriótico”, bombardear cavernas ou investir no próprio povo? Essa epidemia das drogas seria tão avassaladora se houvesse um sistema que priorizasse bem estar social e qualidade de vida, ao invés de liberar ilimitadamente a guerra e exploração?
Um sistema econômico que quebra se ficar parado por curto período é extremamente frágil. Ao observador com método, não apenas paixão, consegue enxergar inúmeras máscaras e fantasias que caíram na loucura epidemia do Covid-19. Bancos centrais emitindo moeda em excesso e empresários se endividando ao máximo para “alocar recursos”. Os ricos tem acesso preferencial ao crédito subsidiado. Os políticos criam as brechas e os oportunistas mergulham nelas de cabeça. Propinodutos, corrupção em massa. Isso é inerente a esse sistema. O dólar perdeu 90% do seu valor no século passado. O primeiro carro fabricado em massa, o Ford T (1908) custava no início 850 dólares.

Os ricos, pessoas físicas, são também proprietários das pessoas jurídicas mais endividadas. Jamais foi o PT, Lula ou Bolsonaro. Eles são a ponta do icebergs, são o pão e circo da política. Eles são um, num país de milhões. O problema é o mecanismo e ele é trasnancional. O dinheiro fiduciário é o esquema de ponzi moderno. Uma pirâmide em que ultra ricos ficam no topo junto aos favores do rei (poder político).
Governos se endividam e destroem moedas. Grandes corporações crescem com dinheiro fácil. Trusts, sociedades anônimas, sócios ocultos. O topo da riqueza fica mascarado. É revelador a dificuldade da classe média e alta brasileira de compreender que quando se crítica concentração de renda não se trata do Doutor que tem carro zero financiado na garagem. Ou no dono de padaria que comprou casa na praia. Fiquem tranquilos, comunistas não vão tomar sua casa. Esse é apenas um conto do vigário contado por ultra-ricos no intuito de assustá-los. Ao primeiro comando do pato da FIESP, uma multidão de pintados verde amarelos saem na rua. CHEGA DE COMUNISMO, grita a massa – sem perceberem que estão num dos países mais desiguais do planeta.
As pessoas tem de acreditar em algo. É mais fácil criar um inimigo/demônio e controlar as massas pelo medo. Steve Bannon, o sagaz manipulador por trás do Brexit, Bolsonaro e Trump, sabe muito bem disso. Lula, e a crise econômica criada por homens de olhos azuis, idem. Isso é normal, sempre fez parte da política. Dividir para conquistar, Júlio César escreveu há dois mil anos. Infelizmente, o caminhar da polarização extrema é em círculos. Resignificação de palavras e relevar o discurso de apologia à tortura ao eleger um Presidente. Tudo era melhor que o inimigo, é como se não soubéssemos como surgiu Adolf Hittler.
E cá estamos. Entre a cruz e a espada. Uma epidemia de overdose indica que se matar muitas vezes é melhor do que encarar esse sistema opressivo. Um grito fica entalado na garganta, enquanto esperamos que vikings nórdicos, Mitos, Messias e Deuses venham nos libertar. De nós mesmos.
Só democracia digital salva!

Um baita texto. Gostei.
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Parabéns pelo texto!! É um tapa na cara da humanidade.
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