Bandeiras, carros de som e protestos. Uma operação judicial finalmente consertaria o Brasil. Em troca do combate à corrupção, a sociedade (ou fração dela amplificada pela mídia corporativa) abriu mão do devido processo legal.
O povo aplaudia os heróis do impeachment: garotos prodígios, brancos, héteros e cristãos. Dallagnois e Moros, fabricados em série pelo divino MPF. O alvo?
Ainda que jurem que não, no fundo todo mundo sabia. O maléfico molusco cachaceiro. O nove dedos, ou nine pros íntimos. Pintado como demônio pelo Jornal Nacional.
Não é preciso muita perspicácia para entender que as coberturas da Globo eram totalmente tendenciosas. Ao invés de noticiar o fato, criavam narrativas próprias, mascaradas sob a alcunha de jornalismo imparcial. Moro era o imaculado, Lula era a personificação do diabo e William Bonner o Pastor!
Deu no que deu. Sob o apoio de grande parte da população, destruíram o pilar político brasileiro e parte da indústria ruiu junto. Houve uma batalha governo PT-Lula-Dilma contra lava-jato, congresso, mídia, e movimentos financiados “sabe-se lá daonde” como MBL, vem pra rua e congêneres agitando a massa. ‘Tem muita gente pra financiar o impeachment‘ disse o deputado Paulinho da Força Sindical.
Quando essa batalha cessou, só sobrou cinzas. Segundo profecia de Dilma Rousseff:
Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.
Deu tudo errado. Jair Bolsonaro é, no momento, o coordenador das cinzas institucionais que sobraram. Questionado sobre ter gasto 15 milhões em leite condensado, sendo que o preço unitário foi de 162 reais, Bolsonaro falou que a mídia deveria enfiar o leite condensado no rabo. E ainda fez graça:

“Quando vejo a imprensa me atacar, dizendo que comprei 2 milhões e meio de latas de leite condensado. Vai pra puta que o pariu, porra. Essa imprensa de merda, é pra enfiar no rabo de vocês, de vocês da imprensa, essas latas de leite condensado aí” – disse o Mito.
Difícil imaginar a maneira escandalosa como o Jornal Nacional cobriria isso se o Lula fizesse o mesmo. Ainda mais difícil é imaginar por que agora NÃO SAI UMA NOTA em G1 e UOL sobre o acontecido?


Isso é o golpe que não deu certo. Moro e Dallagnol agora sumiram e se tornaram “notórios esquecidos”.
– Vossa Serventia não é mais necessária – avisam os irmãos Marinhos. É o código para colunistas como Merval Pereira, Miriam Leitão, Sandberg, entre outros, não mais tocarem no assunto. Lacaios do baronato midiático, conforme definição de Ciro Gomes. Descartáveis, como mercenários contratados pelos donos do Poder.
Combater corrupção no Brasil é munição para batalha política. Simples assim. Polícias e Judiciário só conseguem fornecer Justiça política se há um mínimo de republicanismo entre as Instituições. Não é o nosso caso, Brasil, a Casa da mãe Joana.
Bolsonaro é a curva do Rio. É a consequência imprevista de algo que começou em 2013 com protestos por vinte centavos. Mirando em Aécio e o PSDB, acertaram no Mito.
Para quem vê Bolsonaro como “a pior coisa que aconteceu o Brasil”, isso é uma análise rasa. Bolsonaro é resultado da sociedade brasileira funcionando perfeitamente. É a catarse de desejos e ódios reprimidos dos eleitores. Arminha na mão e apologia à tortura? Palmas e votos!
Deve ser difícil ao povo que há pouco tempo se pintava e aplaudia a lava-jato e o fim da corrupção, se calar com as maletas cheias do Temer e Aécio. Com os rolos do Bolsonaro (Queiroz, milícias, funcionários fantasmas, crime de peculado ou rachadinha) . Será que finalmente entenderam que serviram apenas de massa de manobra? Que, sem Globo televisionando e o MBL organizado, eles não são nada além de uma massa revoltada e impotente?
As Jornadas de Junho de 2013 pararam o Brasil, mas na hora de andar novamente não havia direção. Assim aquela insatisfação contra o establishment político foi captada por oportunistas e direcionada para um inócuo ódio antipetista, como se o problema político se resumisse a um partido.
A realidade está aí para mostrar que deu ruim. “Poderosos” planejaram o futuro, mas ignoraram o poder do acaso. Queriam tucanos, mas criaram um Mito. Agora, a imprensa que vendia a ilusão que tudo ia melhorar com o fora Dilma tem de normalizar o presidente Bolsonaro os mandando enfiar leite condensado no rabo.
É curioso notar que os protestos de 2013 começaram por um aumento de vinte centavos das passagens de ônibus. Albert Pike diz em Moral e Dogma:
A Força, incontrolada ou mal controlada, não é apenas desperdiçada no vazio, tal como a pólvora queimada a céu aberto e vapor não confinado pela ciência; mas, golpeando no escuro e seus golpes atingindo apenas o ar, ricocheteia e se auto-atinge. É destruição e ruína. (…) Como a Força é mal controlada, as revoluções são falhas.
Potência não é nada sem controle. Foi um tiro no pé. Não adianta parar o Brasil por insatisfação, se não houver um mecanismo para direcionar essa insatisfação de maneira produtiva. Caso contrário, continuaremos andando em círculos.
É por isso que Democracia Digital é tão importante.

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