Política

A Era dos alucinados

Em tempos de Internet, contradições e inconsistências não são defeitos das crenças. Pelo contrário, são o combustível do fanatismo.

Imersas em ilhas ideológicas as pessoas enxergam o mundo como lhes convém. A realidade é relativizada no mundo virtual onde narrativas travadas incessantemente em redes sociais. Correntes de Whatsapp repassadas ad infinitum são agora fontes legitimas de informação.

Quem vence não é necessariamente o lógico ou verdadeiro, mas quem causa mais repercussão. Ganha quem sequestra a pauta, engajamento é tudo.

É desesperador. Na ciência, venceu a cloroquina e a terra plana. No meio ambiente, a boiada passou. E na política foi eleita foi a mamadeira de piroca. O extremismo aumenta em todo o planeta, sinal da loucura que aflinge nossas cabeças. Amparados por wikipedia qualquer um se torna expert instantâneo de qualquer tema.

Que tal essa: Nos EUA, milhares de seguidores do QAnon se juntaram no local de assassinato de John Kennedy na cidade de Dallas (Texas) acreditando que o filho dele, JFK Jr (25 de novembro de 1960 — 16 de julho de 1999) retornaria dos mortos para recolocar Trump na presidência (fonte).

Todo dia sai um malandro e um trouxa de casa, se eles se encontram, sai negócio.

É claro que há método na loucura. Enquanto multidões são manipuladas, há quem ganhe com isso. Os políticos adoram isso, o jogo do vilão e mocinho. Manipular o medo, ódio e mentira como modo de vida.

O maniqueísmo sempre foi alicerce da propaganda política. É por isso que, via de regra, o congresso é composto pela escória. Todo tipo de sociopata e canalha em série. P.ex. Aécio Neves foi absolvido do áudio falando em matar no encontro de seu primo pego com maleta de dinheiro no encontro com Michel Temer.

Agora a Internet potencializou isso. Vide a carreira política de Bolsonaro, o Mito. Vide o malabarismo retórico que seus minguantes apoiadores fazem para tentar justificar o desastre. Lembre-se, patético somos nós. Que permitimos que Congresso roube impunemente. Que toleramos o Judiciário conivente. E por fim, que elegemos para a chefia do executivo homens que se vendem como salvação. Bolsonaro é a releitura de Fernando Collor trinta anos depois. O caçador de marajás agora se elegeu como destruidor de comunistas. Até tortura vale, para essa grotesco personagem milimetricamente construído para satisfazer a fragilidade de identidade do macho latino.

Quem discorda é comunista, esquerdista, petista, vagabundo, etc. É claro que a manipulação não se limita a direita. Na esquerda os termos mudam. Mas o espírito é o mesmo.

Faz parte do método jogar qualquer argumento contrário num outro extremo, pois assim se encerra o debate. Tira-se do racional para jogar com a emoção. Logo, quem critica Bolsonaro é um petista vagabundo comedor de mortadela. Tira-se a discussão do argumento para atacar o argumentador.

Tem método. A desinformação vale mais que a informação, desde que atinja maior audiência. Uma mentira se espalha muito mais rápido que a retratação dessa mentira. Logo, vale a pena mentir, pois a retratação é menos eficiente do que a desinformação.

Essa força se apoderou da política na mão de manipuladores profissionais. Gabinetes do ódio serão uma realidade constante em todas eleição. Justamente por funcionarem e por determinar eleição, não por fatos, mas por desinformação e destruição de reputação.

A realidade fática, se é que ela ainda existe, é que o Brasil se tornou um hospício de proporções imensas. O eterno país da fome tem 521 anos de crise. Prosperidade? Apenas um eterno anseio de um futuro que nunca veio. E quiça virá, especialmente nesse falho modelo político de democracia representativa.

O prognóstico de nossa democracia é simples: crise constante até que se mude a forma de representação de poder.

Movido por propina e orçamento secreto, o Congresso só pensa em interesse público na época de eleição. Chefes do legislativo como Arthur Lira e Eduardo Cunha são chefes de quadrilha.

Até quando vamos tolerar isso?

A cura da nossa chaga social requer tomar de volta o poder que delegamos a quem não nos representa.

Boas ideias precisam de uma boa política para se manifestar. Caso contrário, independente de modelo econômico, sempre será crise. Social, econômica, ambiental e política. São aspectos inseparáveis.

A boa política transforma deserto em oásis e má faz o caminho contrário. O Brasil é um dos países mais abundantes em recursos naturais do planeta, mas consegue a façanha de ser miserável.

A maior riqueza que existe é a boa organização social. Sem ela, não há tirania, capitalismo ou comunismo que nos salve. Sem dúvidas: maior que problemas ideológicos, o problema é falta de representativa.

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