Política

3 formas de preguiça, Dalai Lama e o mito moderno da hiperinformação

Em palavras da sabedoria, Dalai lama diz que existem basicamente três formas de preguiça:

1) desejo de adiar: amanhã (semana, mês, ano) que vem começo (a academia, dieta, a meditação, etc…);

2) autodepreciar-se: anula-se previamente para sequer tentar (não consigo, isso não é para mim);

3) manter-se sempre ocupado: não começo porque não tenho tempo, sou muito ocupado.

Esses são os três subterfúgios que a mente usa para se esquivar dos objetivos que ela mesma atribuiu importância. O obeso mórbido morrendo pela boca, mas não consegue fazer dieta. O sedentário que destrói seu corpo num estado físico de eterna inércia. O neurótico que não controla seus pensamentos, mas nunca tentou meditar.

Esses são alguns exemplos extremos no intuito se ilustrar. Mas fato é que todos utilizamos essas formas sutis de preguiça em nossas vidas. Procrastinar é uma palavra com sentido subjetivo, para cada um vai significar alguma coisa de acordo com sua escala de importância.

Das três formas de preguiça, Dalai Lama fala que a terceira é a mais sutil. Falar para nós mesmos que não podemos no momento porque estamos muito ocupados é eficiente para auto-enganarmos.

Explico: é possível procrastinar sob a aparência de estarmos sempre ocupados. Mesmo que essa ocupação se limite q tarefas repetitivas, toscas e que ocupam o lado mais superficial da mente.

Alguém que passa o dia ao telefone, a viciada em faxina, sempre conhecemos pessoas que juram que nunca tem tempo para nada. Contudo, diariamente passam horas e mais horas compulsivamente mexendo em celular.

A informação ilimitada está constantemente disponível. Mesmo se alguém passar a eternidade mexendo no celular nunca vai conseguir acompanhar todo conteúdo que é produzido. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Manter-se ocupado vendo reels (youtube), stories (instagram), dando curtidas (Facebook), Tiktoks e similares, trocando constantemente de videos e imagens com um passar de dedo na tela.

É muitos fácil pro próximo conteúdo. As plataformas digitais sabem o tempo que você vê algo, ou quão rápido se esquiva, e logo o algoritmo se encarrega de alimentar o seu feed com o exato conteúdo que você quer.

Do lado das big techs, inteligência artificial e profunda análise e engenharia de dados ajudam a entregar o conteúdo mais viciante possível . Ganha quem manter o usuário mais tempo online possível. Mais tempo online implica em mais publicidade entregue que implica em mais lucros bilionários para os donos das plataformas.

Com propriedade, um anônimo escreveu: se as redes sociais são gratuitas é porque você é o produto. Veja a terminologia, redes sociais são gratuitas, não tem clientes e consumidores, mas sim usuários desses mecanismos viciantes criados e aperfeiçoados por profissionais remunerados a a preço de ouro.

E a preguiça? Preguiça de manter-se informado na Era da informação significa passar horas diárias vendo compulsivamente videos, twites e memes, reels, reacts, correntes de WhatsApp, ou o quer que seja, enquanto não tem tempo e vontade de acompanhar qualquer ideia que se prolongue por mais de cinco minutos para ser compreendida.

Um tédio gigante se apossou de nós, enquanto, hipnotizados por uma tela, passamos o dia passando para o lado o dedo enquanto nosso cérebro caça dopamina e prazer.

Em Admirável mundo novo, Aldous Huxley diz que os homens seriam controlados pelo prazer, via a droga Soma que faz com que seus usuários jamais fiquem tristes ou entediados. Sabe porque um livro vira clássico? Porque suas ideias, se boas o suficiente, se perpetuam no tempo por reverberar nas mentes das pessoas de todas gerações. A Soma de Huxley, publicada em 1932 continua tão atual hoje em dia, quase 100 anos depois. Ideias clássicas são absorvidas, repassadas e transformadas geração após geração. 1984, Admirável Mundo Novo, Fédon de Platão, Política de Aristóteles: é difícil dizer onde uma ideia termina e onde começa outra.

Pense nas infinitas de correntes de WhatsApp, infinitos videos de gente rebolando e dançando em Tik Tok e congêneres, videos de violência (morte, roubos, linchamentos tiroteios), que diariamente viralizam nas redes sociais. Hoje fenômeno viral, amanhã e bytes esquecidos numa espécie de limbo digital.

Quem daqui 50 anos vai ver video da funkeira de fio dental rebolando ou conteúdo de influencer que vive de fazer pose Macho Alpha? Dane-se, nessa jornada niilista o que importa é agora. E cá estamos, aprisionados na prisão virtual.′l

A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros nunca sonharão em fugir. Um sistema de escravidão onde, graças ao consumo e diversão, os escravos amarão a sua escravidão". Aldous Huxley. 

A síndrome do pensamento acelerado é o cárcere do homem moderno. Bombardeado por tanta informação não sabemos ao certo o que é distração e o que é vital. Conseguiremos nos livrar da arapuca digital?

É provável. O homem vai aprender a usar as ferramentas. Óbvio que no futuro o raso, o erótico e fútil continuarão existindo. Faz parte da natureza humana. Porém não como forma principal de interesse e discussão social. O vital não será o mais polêmico, mas o mais profundo. O acesso à Internet chegou as massas no final da década de 90. Smartphones em massa são fenômenos dos últimos 15 anos. Lidar com esse infinito volume de informação é desafio recente ao homem e chegará a hora que utilizar de modo positivo as informações e comunicação será necessidade vital para sobrevivência do homem.

E isso inclui a política. O aumento do extremismo e ruídos que vemos pela política mundo afora são sintomas de um sistema político em ruínas. Discutir qual político é pior ou eleger representantes, exatamente como fazíamos no mundo pré internet, não será mais forma de Política viável.

A democracia representativa não mais representa sociedades que manifestam livremente pela internet. Falta apenas nos darmos conta disso. Falta superar o cômodo hábito de repassar conteúdo capcioso, criado por gabinetes políticos de ódio e mercenários ideológicos bem remunerados, e chamarmos isso de ativismo político. Falta criar alternativas, ao invés de unicamente xingarmos o modelo vidente.

Quem saberá quando esse dia vai chegar? Espero que breve!

Lembre-se: a pior política ainda é melhor do que a ausência de política. Antipolítica é um engodo ideológico que serve unicamente pra fomentar o ódio e legitimar ditadores que juram que vão destruir toda a odiosa estrutura política vigente. Mas afinal, para colocar que e quem no lugar?

Democracia digital, chega de representantes.

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